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acordo quando o dia se deita
exploro os cantos
escondidos do tempo
vago sorrateira sob as costas
da noite enquanto as horas
tratam de se ajeitar
chega o momento
em que acorda a tia dos fundos
pra requentar o café
os cães da casa da frente
ladram como quem pede ajuda
parece que vai acordar
a vizinhança inteira
mas não acorda
e continuo eu só
esperando um cafuné do sol
que me toca tão quente o cabelo
quanto rápido fecho os olhos
procurando por dentro das palpebras
algum sinônimo de paz
no vermelho alaranjado que a luz traz
onde você se põe eu renasço.encaro essa estrada a minha frente com os olhos de quem teve que ir lá no meio da selva de pedra pra descobrir como caminhar por ela. na poesia sobre os meus cabelos, eu fui lá no conflito mais quente dentro das confusões que eu nunca criei, mas existem porque eu existo. e persisto. e digo que largo tudo quando lá, diante do palco, entendi que zero não é sobre recomeçar, mas começar porque tudo vira novo e aniquila a apatia que se instala toda vez que a saída mais próxima é estancar. eu sou nova agora. mas o meu sentir é tão antigo quanto todas as vidas que vivi e todos os zeros aos quais retornei.
a medida que muda o verso
um sinal sutil
quase imperceptível surge
olhei pro amor
e vi outra face de mim
olhei para os meus
e vi outro jeito de mim
aqui eu não caibo
nem aí, na sua crítica
levada pela mente de outro
nem aqui, na minha mente
que de tanto pensar
não vê mais no teu vazio
algum modo de andar
e crescera medida que muda o verso
muda o pensamento
e o rumo da história
que quando se pensa diferente
é sinal que a caminhada
precisa de uma nova trilha
e que o peito precisa
de um novo afago
e conforto
é aí que desperta
uma manhã dentro de situ reside em luz
eu quis escrever um texto cruel demais e sangrar todo o descarrego desse peito calcado em paranóia, mas a minha língua é doce e as letras que ensaiam tragar minha poesia são mais afiadas que a dor que os meus olhos vêem no desespero dos olhos dela. eu quis falar de amor, mas a tinta da minha caneta é tão negra quanto o tom da minha pele e quanto os fios dos cabelos dela -que já são brancos, mas ela insiste em disfarçar a idade. deve ser o medo de que eu perceba o cansaço estampado nos teus ombros. eu quis escrever sobre evolução e espírito, mas o meu próprio anda a mercê desse corpo curvado é o dela há tanto caminha por aqui que transcendeu a elevação. eu quis falar da tristeza, mas ela me calou o choro com uma história que começava assim: um dia você nasceu. um dia você nasceu e ninguém acreditava, de tão pequena, mas eu sempre soube que seria grande. de novo eu quis falar de amor, mas ela amou primeiro e me fez perceber que do amor eu nada sei.
uma estação testemunhou
a minha transgressão
luz
véspera de ano novo
no meu peito
e nas mãos a apreensão
de quem se vê mudar
de pele
de dentro pra fora
renascendo ali: na luz
do dia da cidade cinza
tão viva quanto o céu
azul da planície
tão luz quanto a estação
que testemunhou a minha
transgressão
a poesia me tomou
num súbito
eu entrei numa linha
a caneta escorreu meu peito
entre metáforas e trocadilhos
mal feitos
do gosto pela bagunça
na falta da lírica perfeita
arriscando versos sem rima
porque a métrica não faz falta
quando a poesia te toma
e a poesia me tomou.num súbito.
gozo poemas sobe
a estupidez humana
e a maldade ingênua
que carrega sua
mente vazia
ao se achar
dona da verdade
falo das feridas
compostas por mãos sujas
e honro minha própria
bondade
em nome da sanidade
escassa
que ainda reside
neste corpo
calo a boca
das angústias deste
estômago febril
e consumo mais um
catástrofe
sumo por aqui
e chego a lugar nenhum
mas volto de mim
um pouco maior
que da última vez
que me perdi
encontro o paraíso
nas linhas deste caderno
e depois que o peito
se alivia de tanta agonia
o amor retorna ao lar
porque já fui
espera ao desabar
e sobrevivência
ao reparar
de ouvidos atentos
que escutar carrega
mais sabedoria
do que falar
e aprendi que
aprender é parte de ser
e ensinar é rotina
de se entregar