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I - Desistência

Elena
Eu tô no fim de tudo
La onde cê foi dançando sozinha no quarto
E recitando João Cabral de Melo Neto
Eu to indo também
É que eu não tenho banheira nem sedativo
Mas eu chego lá
Eu arrombo a porta se for preciso
É que ficar dói demais, Elena
E também desde aquele dia
Que cê virou agua
Eu tô afim de te conhecer
Eu vou pra aí te ver, Elena




II - Se eu continuo, é pelos olhos do meu amor.

Elena
eu voltei do fim de tudo
voltei porque ela tem uns olhos
que ficam aqui
bem no meio de tudo e
você sabe o que é tudo
não sabe, Elena?
pois bem
ela tá exatamente bem no meio
e me atrai mais que a ideia
de uma revolução camponesa
e eu só penso que os fuzis
desse povo todo do campo
não mataria mais do que
aqueles dois universos
castanho meio-a-meio
Hoje, sem querer, eu vi alguém escrever no corpo uma homenagem à tua juba e o cigarro caindo da boca. Eu não sei, deu um nó na garganta. Acho que eu ainda espero você me ligar pra a gente dar um rolê de bicicleta pelo Rio, sabe? Pra eu te socorrer caso cê solte as mãos e entre na frente de um carro ou pra a gente sentar na estátua da praça XV com os capacetes na mão e esperar anoitecer pra dar uma olhada na juventude pós moderna curtindo um som ali no Teles. Ou eu espero ainda que a gente volte lá naquele show da Tulipa que a gente não conseguiu entrar, mas valeu a noite rodar de bar em bar declamando poesias que cê nunca tinha me mostrado antes e a manhã seguinte que eu saí corre do da tua casa, atrasada que eu tava. A gargalhada do Marcus ecoou a sala toda rindo da minha falta de jeito, cê lembra? Que droga, sabe? Pense aí em alguém imortal. Pois é. Sabe quando cê vai, fica no seu cantinho, mas sabe que a pessoa ainda tá lá e tem a vaga impressão de que ela sempre vai …
"O tempo é uma uma coisa relativa. Se hoje fosse ontem, amanhã seria hoje. E como diria o síndico: vai saber o que o gorila pensa."

Na primeira hora eu penso que nem devia ter acordado, mas eu penso no que viver me trará de bom naquele dia. E traz. Numa hora eu tenho os chamegos do meu amor, que não bastando é a conversa, o dia que se faz naquele minuto e define todo o rumo do resto. Depois eu tenho a hora em que eu sigo sendo o que eu quero dentro do que eu deveria e do que eu posso ser. E eu sempre escolho o que eu posso ser. As horas, elas definem o que eu sou em um dia, mas eu sei que sou muito mais.
Eu sou o cigarro a varejo no bar depois de encontrar a galera mesmo quando eu estava a caminho de casa. Eu sou a ansiedade de manhã esperando ela acordar, porque é fato que a saudade aperta e mesmo quando ela tá dormindo eu penso que estar junto seria a melhor de todas as hipóteses que a minha mente constrói em um minuto. Eu sou aqui. Eu sou agora. Tudo é ansei…
Nós éramos nós. A tatuagem no antebraço esquerdo significava mais pra mim do que eu pensava. O cabelo desgrenhado no meio de toda a bagunça sinalizava a presença aquém do que existia entre nós. Um cigarro às cinco da manhã e eu me sentia tão unida a sua fumaça de acordo com o que tu era. É.
Tu: é o vício nas noites insones esperando uma resposta. As quartas feiras cravadas, sobre um texto a cerca da corda moldada no pescoço. Mas eu não posso. Nunca mais. E saber que eu não vou estar la, se a corda arrebentar e sufocar o teu pescoço é como saber que eu condenei o amor a uma prisão perpétua. Mas eu não vou estar. Eu não quero estar. Não depois de saber que de toda dor, desgraçada em amor, eu sou só o que te salva. Só, porque eu te salvo, mas quem afunda sou eu. Não mais. Eu não tô aqui. O tempo fez uma descarga de tudo o que me prendia nesse tempo, seu. Passou. E deixar ir me parece descuidadoso. Mas eu preciso cuidar de mim. Adeus.
o meu amor dói na garganta
dor de grito preso
que to guardando mais de dias
peso de um amor inteiro
atravancado nas cordas vocais
aí o meu amor dói
e não desce nem faz digestão
que ele quer é pular
da boca pra fora e mudar
toda a concepção dessa expressão
aí o meu amor dói
e vira passageiro preso numa estação
igual eu quando passo la na rodoviária
e vejo ônibus saindo pro ceará
e o meu amor dói mais ainda
dói nas pernas mai eu juro que
noite dessas eu quis ir andando até lá
e num tinha dor nas perna que me arregace
de bater la na porta de joelhos
o meu amor dói na hora de acordar
que eu queria era abrir meus olhos e
beijar os oim dela
Eu bagunço os teus olhos e desejo a tua carne como sacrifício das minhas entranhas estragadas, eu bagunço os teus olhos porque sei que vermelhos eles são mais expressivos do que eu quando quero dizer que os amo e que desejo sim entre as minhas pernas os teus labios, mãos, desejo aplicado numa equação que resulta sempre em nós. Não tem, não existe erro em estar louca e você tem o melhor dos dois mundos: o que pertence aos teus anseios e aos que pertencem aos meus desejos interrompidos pelos afazeres do meu dia, mas que não minam a vontade de andar dois mil quilômetros e poucos pra adentrar os cabelos réus num cheiro que capta a alma do que te apossa e entra em mim como uma faca rasgando do bucho até lá embaixo e não doi. Não dói porque você me cura até de mim e do que eu mais tenho medo cá dentro e não é possível colocar pra fora. É amor. Toda a bagunça. Todo o tumulto. Uma bela bagunça.
Me demonizam. Eu sou, para eles, qualquer experimento científico que deu errado, menos eu mesma. Eu sou o profano, o incompleto, a peça a mais no quebra-cabeça e eu não me encaixo. Em casa, eu sou o disfarce, o assunto que nunca tocam, a fase. Na rua, eu sou alguém até eles saberem. No rolê eu sou a possível realização sexual de um homem qualquer. Mas quando ninguém tá vendo, eu sou a dança estranha e feliz por ninguém estar vendo; eu sou um quarto bagunçado que se ajeita bem na bagunça que eu tenho por dentro e o alívio por ninguém estar vendo; eu sou a preguiça, os desenhos de manhã, as leituras, a carência do cafuné de mãe, mas principalmente o alívio por ninguém estar me vendo. E assediando. E se afastando. E mudando de assunto. Aqui, onde eu me escondo, eu sou eu e sou tão igual a você quanto eles. A diferença de mim pra você, é que eu gosto dela.