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Mostrando postagens de 2017
a poesia me tomou
num súbito
eu entrei numa linha
a caneta escorreu meu peito
entre metáforas e trocadilhos
mal feitos
do gosto pela bagunça
na falta da lírica perfeita
arriscando versos sem rima
porque a métrica não faz falta
quando a poesia te toma
e a poesia me tomou.num súbito.
a medida que muda o verso
um sinal sutil
quase imperceptível surge
olhei pro amor
e vi outra face de mim
olhei para os meus
e vi outro jeito de mim
aqui eu não caibo
nem aí, na sua crítica
levada pela mente de outro
nem aqui, na minha mente
que de tanto pensar
não vê mais no teu vazio
algum modo de andar
e crescera medida que muda o verso
muda o pensamento
e o rumo da história
que quando se pensa diferente
é sinal que a caminhada
precisa de uma nova trilha
e que o peito precisa
de um novo afago
e conforto
é aí que desperta
uma manhã dentro de si
reconhecer a própria luz
é resposta
pro que te conduz
gozo poemas sobe
a estupidez humana
e a maldade ingênua
que carrega sua
mente vazia
ao se achar
dona da verdade
falo das feridas
compostas por mãos sujas
e honro minha própria
bondade
em nome da sanidade
escassa
que ainda reside
neste corpo
calo a boca
das angústias deste
estômago febril
e consumo mais um
catástrofe
sumo por aqui
e chego a lugar nenhum
mas volto de mim
um pouco maior
que da última vez
que me perdi
encontro o paraíso
nas linhas deste caderno
e depois que o peito
se alivia de tanta agonia
o amor retorna ao lar
porque já fui
espera ao desabar
e sobrevivência
ao reparar
de ouvidos atentos
que escutar carrega
mais sabedoria
do que falar
e aprendi que
aprender é parte de ser
e ensinar é rotina
de se entregar
calo vazios
calo a inconstância
que se aloca
em alguma parte
perdida dentro da minha cabeça
calo verdades que
não quero escutar de mim
portanto o papel não
as vê também
calo a letra que inicia
esse poema
e guardo em mim
até que não haja jeito
de prender
meu peito é a própria
faixa de Gaza
e tudo que se cala
explode
por todos os cantos
em conflito
na minha pele
I - Desistência

Elena
Eu tô no fim de tudo
La onde cê foi dançando sozinha no quarto
E recitando João Cabral de Melo Neto
Eu to indo também
É que eu não tenho banheira nem sedativo
Mas eu chego lá
Eu arrombo a porta se for preciso
É que ficar dói demais, Elena
E também desde aquele dia
Que cê virou agua
Eu tô afim de te conhecer
Eu vou pra aí te ver, Elena




II - Se eu continuo, é pelos olhos do meu amor.

Elena
eu voltei do fim de tudo
voltei porque ela tem uns olhos
que ficam aqui
bem no meio de tudo e
você sabe o que é tudo
não sabe, Elena?
pois bem
ela tá exatamente bem no meio
e me atrai mais que a ideia
de uma revolução camponesa
e eu só penso que os fuzis
desse povo todo do campo
não mataria mais do que
aqueles dois universos
castanho meio-a-meio
Hoje, sem querer, eu vi alguém escrever no corpo uma homenagem à tua juba e o cigarro caindo da boca. Eu não sei, deu um nó na garganta. Acho que eu ainda espero você me ligar pra a gente dar um rolê de bicicleta pelo Rio, sabe? Pra eu te socorrer caso cê solte as mãos e entre na frente de um carro ou pra a gente sentar na estátua da praça XV com os capacetes na mão e esperar anoitecer pra dar uma olhada na juventude pós moderna curtindo um som ali no Teles. Ou eu espero ainda que a gente volte lá naquele show da Tulipa que a gente não conseguiu entrar, mas valeu a noite rodar de bar em bar declamando poesias que cê nunca tinha me mostrado antes e a manhã seguinte que eu saí corre do da tua casa, atrasada que eu tava. A gargalhada do Marcus ecoou a sala toda rindo da minha falta de jeito, cê lembra? Que droga, sabe? Pense aí em alguém imortal. Pois é. Sabe quando cê vai, fica no seu cantinho, mas sabe que a pessoa ainda tá lá e tem a vaga impressão de que ela sempre vai …
"O tempo é uma uma coisa relativa. Se hoje fosse ontem, amanhã seria hoje. E como diria o síndico: vai saber o que o gorila pensa."

Na primeira hora eu penso que nem devia ter acordado, mas eu penso no que viver me trará de bom naquele dia. E traz. Numa hora eu tenho os chamegos do meu amor, que não bastando é a conversa, o dia que se faz naquele minuto e define todo o rumo do resto. Depois eu tenho a hora em que eu sigo sendo o que eu quero dentro do que eu deveria e do que eu posso ser. E eu sempre escolho o que eu posso ser. As horas, elas definem o que eu sou em um dia, mas eu sei que sou muito mais.
Eu sou o cigarro a varejo no bar depois de encontrar a galera mesmo quando eu estava a caminho de casa. Eu sou a ansiedade de manhã esperando ela acordar, porque é fato que a saudade aperta e mesmo quando ela tá dormindo eu penso que estar junto seria a melhor de todas as hipóteses que a minha mente constrói em um minuto. Eu sou aqui. Eu sou agora. Tudo é ansei…
Nós éramos nós. A tatuagem no antebraço esquerdo significava mais pra mim do que eu pensava. O cabelo desgrenhado no meio de toda a bagunça sinalizava a presença aquém do que existia entre nós. Um cigarro às cinco da manhã e eu me sentia tão unida a sua fumaça de acordo com o que tu era. É.
Tu: é o vício nas noites insones esperando uma resposta. As quartas feiras cravadas, sobre um texto a cerca da corda moldada no pescoço. Mas eu não posso. Nunca mais. E saber que eu não vou estar la, se a corda arrebentar e sufocar o teu pescoço é como saber que eu condenei o amor a uma prisão perpétua. Mas eu não vou estar. Eu não quero estar. Não depois de saber que de toda dor, desgraçada em amor, eu sou só o que te salva. Só, porque eu te salvo, mas quem afunda sou eu. Não mais. Eu não tô aqui. O tempo fez uma descarga de tudo o que me prendia nesse tempo, seu. Passou. E deixar ir me parece descuidadoso. Mas eu preciso cuidar de mim. Adeus.
o meu amor dói na garganta
dor de grito preso
que to guardando mais de dias
peso de um amor inteiro
atravancado nas cordas vocais
aí o meu amor dói
e não desce nem faz digestão
que ele quer é pular
da boca pra fora e mudar
toda a concepção dessa expressão
aí o meu amor dói
e vira passageiro preso numa estação
igual eu quando passo la na rodoviária
e vejo ônibus saindo pro ceará
e o meu amor dói mais ainda
dói nas pernas mai eu juro que
noite dessas eu quis ir andando até lá
e num tinha dor nas perna que me arregace
de bater la na porta de joelhos
o meu amor dói na hora de acordar
que eu queria era abrir meus olhos e
beijar os oim dela
Eu bagunço os teus olhos e desejo a tua carne como sacrifício das minhas entranhas estragadas, eu bagunço os teus olhos porque sei que vermelhos eles são mais expressivos do que eu quando quero dizer que os amo e que desejo sim entre as minhas pernas os teus labios, mãos, desejo aplicado numa equação que resulta sempre em nós. Não tem, não existe erro em estar louca e você tem o melhor dos dois mundos: o que pertence aos teus anseios e aos que pertencem aos meus desejos interrompidos pelos afazeres do meu dia, mas que não minam a vontade de andar dois mil quilômetros e poucos pra adentrar os cabelos réus num cheiro que capta a alma do que te apossa e entra em mim como uma faca rasgando do bucho até lá embaixo e não doi. Não dói porque você me cura até de mim e do que eu mais tenho medo cá dentro e não é possível colocar pra fora. É amor. Toda a bagunça. Todo o tumulto. Uma bela bagunça.
Me demonizam. Eu sou, para eles, qualquer experimento científico que deu errado, menos eu mesma. Eu sou o profano, o incompleto, a peça a mais no quebra-cabeça e eu não me encaixo. Em casa, eu sou o disfarce, o assunto que nunca tocam, a fase. Na rua, eu sou alguém até eles saberem. No rolê eu sou a possível realização sexual de um homem qualquer. Mas quando ninguém tá vendo, eu sou a dança estranha e feliz por ninguém estar vendo; eu sou um quarto bagunçado que se ajeita bem na bagunça que eu tenho por dentro e o alívio por ninguém estar vendo; eu sou a preguiça, os desenhos de manhã, as leituras, a carência do cafuné de mãe, mas principalmente o alívio por ninguém estar me vendo. E assediando. E se afastando. E mudando de assunto. Aqui, onde eu me escondo, eu sou eu e sou tão igual a você quanto eles. A diferença de mim pra você, é que eu gosto dela.
Eu a descobri. Ela tem uma coleção de pintas sobre os seios que sobem um pouco mais até os ombros, mas tem uma ali no pescoço que me deixa perturbado das idéias. É um imã e certamente é o lado positivo. O lado negativo são os meus lábios que tratam logo de se alojar ali e criar vontade própria, a fim de se demorar e absorver daquele sinal tão pequeno a imensidão das estrelas que compunham aquele corpo. Só pode ser feita de estrelas. Ou de qualquer coisa que venha do céu, porque não é possível que seja meramente humana aquela pele, aquele toque tão sutil que desarma toda a minha grosseria. Ela tem também esses sinais nas laterais das coxas que eu, particularmente, sinto que é um abismo prestes a me atirar numa queda livre de luxúria. É que a partir daí, o que eu avisto não consegue conter cada besteira que passa pela minha mente e a urgência em por em prática por puro prazer. Meu e dela. Dela ainda mais, porque não existe nada que me deixe mais ligado do que as reações q…
Querida,
Eu estou no fim de tudo.

Caminhei os doze passos, um dia de cada vez. Era isso que dizia aquela música, você lembra? Aquela que eu te contei, escutei todos os dias durante meses dentro daquela porra daquela clínica. "Passo um dia feliz sem você", poderia ser sobre a falta que você me faz e eu felizmente tenho conseguido seguir hora após hora sem voltar a te perturbar. Ainda assim, eu preferia que esse trecho resumisse unicamente essa falta. É mais fácil lidar com o fato de estarmos tão distantes, do que enxergar o poço de mentiras e conflitos que eu me tornei por causa da cocaína. O suor frio que me escorre a nuca, noites febris, a falta... eu preciso dizer que eu dei uns passos pra trás e por isso resolvi te procurar. Tem sido dificil porque essa porra de um dia de cada vez não passa, o tempo ta parado e ainda assim a minha barba cresceu, meu cabelo perdeu até aquele corte engraçado. Eu sou inteiro um caminho perdido. Voltei pra casa, saí de novo, me pe…
olha, eu sou o desajeito, entende? eu ando numa corda bamba em pleno centro de uma via de mão dupla e enquanto eu atravesso no meio dos carros, o amor passa por cima de mim e destrói o que me cabe. doeria menos se fosse aquele caminhão da placa estranha que eu vi outro dia. vê? eu sou o desalento. eu sou a construção desamortizada no fim da rua. e o amor passa na porta, sem sequer cogitar a hipótese de parar pra escutar minha história. tu vê? dos três mal amados eu sou um quarto que nunca entrou naquela prosa porque o maldito do amor comeu eles tudo e não sobrou espaço pra mim. porque eu sou o desequilíbrio, tu consegue ver?
eu te deixei um poema gravado pra ler ao acordar.

depois daqueles fatídicos três anos, desisti de olhar nos olhos dos meus afetos buscando algo que não me asfixiasse assim que o meu sentir se tornasse pleno. eu mergulhei em piscinas artificias, rasas e ainda assim me afoguei. você disse que algumas pessoas não tem fôlego pra tudo isso que a gente guarda dentro do peito e eu notei nessa hora o quanto a gente submergiu juntas nesse oceano infinito de tudo que já machucou e agora somos cura. fiz um poema pra tua alma e pra tua risada sem jeito. quase dormi no meio dessa prosa, até lembrar do seu sorriso. Despertei do sono e de um estado letárgico lírico mais profundo que o que há ao redor dos nossos detalhes. É gostoso pensar plural quando penso no que estamos levando adiante e construindo todo dia um pouco mais. Tu anda por minha liberdade e desbrava as minhas convicções, como quem habita essas terras desde que o mundo é mundo. Vive comigo. Fora do que é convencional, o q…
em cada encontro depois
num único encontro
eu quis te levar pra qualquer lugar
mas me contentei em levar
tuas estradas pra minha alma
e guardar os detalhes da tua caminhada
tranquila e sem rumo
pelas rotas do meu interior
como se tu fosse a esfinge
tratei de tentar te decifrar
mas antes que eu sequer obtivesse
qualquer indicio de sucesso
você me devorou
lentamente
sem mastigar parte alguma
e me aprisionou
bem em teus olhos.
então, é nessas madrugadas
de luzes apagadas
que se acendem as idéias
e nelas moram todas as palavras
que eu não pronuncio
durante o dia e nem hora nenhuma
mas tonteiam a minha mente
esperando a hora de despertar
e se derramarem fixas no papel
como quem pula de cabeça
numa piscina, num abismo
ou num amor.
de repente juntam-se todas as dores. dói o amor, dói o corpo, dói alma e espirito.
se minha vó inda vivesse, diria que a solução é juntar tudo e jogar fora.
ô vó
se eu me jogar por inteiro será que alguem pega pra consertar? eu to com uns defeitos aqui, umas rachaduras que não sei se da pra remendar e... ainda que desse não ficaria tão bom quanto o seu cobertor quentinho todo feito de retalhos.
que na verdade, vó, eu nem sei como se remenda se os meus próprios retalhos são frágeis demais pra aguentar uma costura.
você sabotou a minha poesia
minha concentração.
o meu caderno de anotação
ta cheio de frases não terminadas
que me levam a pensar que
não há frase na vida que iniciará
um poema ou uma prosa sobre tuas pernas
fascinada que sou por elas, mesmo que
nunca as tenha visto e adoraria que
me encontrassem no ar ou
no meio do caminho
pra eu finalmente descobrir
onde começa e onde termina
todo esse teu infinito
no qual eu meu jogo em queda livre
e caio. sem medo do que
me aguarda ou me guarda.
minny poema.

essa menina...
ela é o buraco negro do meu mundo
aquela fenda minuscula
que ta lá e eu nem vi mas ela
ela atrai meus metais e todos materiais
do meu corpo
ela atrai...
e diferente do buraco negro
que destrói tudo a sua volta
ela constrói ela da vida
essa menina...
e eu sem reclamar me deixo sugar
pelos cabelos dela
pelos olhos dela
pelas mãos...
aquelas mãos, acho que são elas
a fonte de toda minha assimetria
poética
e de toda minha veneração patética
e a voz dela reverbera por
todos esses meus tubinhos
que vocês chamam de arteria
que quando chegam lá
vocês sabem, no coração
eu já me desmanchei todinha
de amor por ela.
o verniz sempre desgasta.
as pernas de madeira daquela mesa
afrouxam
tal qual o descompasso dos nossos
passos
que antes compassavam lado a lado
e mesmo que a estrada fosse contraria
o teu passo ecoava pelo meu caminho
como se fosse a tua música favorita
guiava
tanto quanto a estrela dos três reis magos
e a tua mão atravancada a minha
era um presente
mais valioso que o que aquele menino lá
ganhou quando nasceu.
eu nunca fui boa em física
nunca fui, mas a eletricidade...
não é preciso entender muito de física
quando se sente passar pela pele
correntes de sei la o que
e o choque quando o atrito...
e nestas reticências eu guardo
o segredo da descoberta de que
quando um quer e o outro também
os dois brigam
mas é com quem inventou que
dois corpos não ocupam o mesmo lugar
no espaço.
eu odeio as quatro da manhã
porque ela tem o poder de
me fazer relembrar
e eu não consigo afastar da vista
a nossas cenas
sempre as quatro horas da manhã
querendo ir dormir
mas imersos de mais
nos dedos um do outro
pra deixar que qualquer obrigação
os descruzasse a não ser que fosse
pra tu ir naquela boteco que nunca fechava
só pra comprar um maço de cigarro
enquanto eu preparava um café e esperava que
às quatro e trinta, ao invés de chegar lá
você chegasse aqui
e pudéssemos por em prática
todos desejos que as quatro da manhã
por entorpecencia ou vontade
nossas bocas se encarregavam de cuspir
como quando um fumante se enche de saliva
depois de tragar
e a fumaça era o branco que dava
quando num interminável amontoado de
promessas
a gente esquecia que já eram
quatro horas da manhã.
existe um som no teu silêncio
ainda não descobri como ele é
mas me passa pela ideia
que ele seja como a voz materna
para um filho que
ainda nem saiu do ventre
como os agudos da aretha franklin
e baby
you make me feel like a natural woman
misturando duas linguas
que eu mal domino
soterrada sob fragmentos da tua fala
que sugerem uma pausa
pra absorver o que dizem os astros
buzios, bíblia, qualquer coisa
e enquanto todos falam,
tem esse teu silêncio...
num dia ela tem do outro lado
quem lhe prenda entre os braços
e num mata-leão pre destinado
lhe jogue na cama como um bicho
e os olhos de vontade quente
de entrar e morar ali
na vagina, nos seios, nos olhos
e depois quando se vai
fica a vontade morna de
morar ali e la fora, na chuva
ácida
derretendo a tinta das paredes
e decapitando a alma das córneas
que eram moradia
e quando chega o outro dia
não há sol que esquente
nem os cantos, nem a pele
nem a partida.
[introdução a uma história de desamor]

Eu já vi essa cena antes.
A gente vai ficando porque o medo da solidão quando se instaura, é mais gelado que o Rio Grande do Sul nos teus graus negativos. Da medo, sabe? Congelar por dentro me parece muito mais doloroso e talvez por isso virar a esquina também me pareça tão trágico quanto um filme de drama onde enquanto um continua parado em frente a própria casa sentindo o frio se abater o outro pega a próxima rua à esquerda e continua andando sem olhar pra trás até sumir de vista. -eu, geralmente, sou a pessoa que toma o rumo sem olhar pra trás.
Poucas foram as vezes em que eu fiquei pra contar passos na direção contrária e sinceramente, não me orgulho disso. Virar a esquina sozinho não é nenhum ato de amor próprio, muito menos egoísta. É solitário e quando finalmente se olha pra trás, as ruas já mudaram de lugar e é difícil voltar.
Mas, mais uma vez, eu já vi essa história antes.
A gente parte porque é insuportável pensar em fica…
absolutamente zero
quando um e um se ajunta
e se anula
não que um e um dê menos
é que dois se arrebatam
de corpo e tudo
sem cair nem um cílio
e na volta não faz sentido
nem ser um só.
não é que doa. cansa.
cansa brotar flor na pele pra alguém não cultivar, por puro desleixo com as sementes que o outro, mesmo com medo ou vergonha, rega pelo corpo pra deixar florescer.
e se pragueja esse tal de amor, as línguas já apontam de mal amado.
pois é mal amado mesmo!
quem é bem amado, já virou um roseiral inteiro ou aquele campo de girassóis no meio da estrada. e todo dia é o corpo do amor que vira chafariz. daqueles bem gigantes que irriga o coração inteiro.
é disso que eu tô falando: se a gente cuidasse do amor do outro como cuida das sujeirinhas do próprio umbigo, num ia ter nesse mundo quem cansasse de amar.
as veiz bate aqui
tipo tambor de terreiro
tipo grave de trio elétrico no carnaval
as veiz bate entre as coxas, nos seios
na nuca
a quando para de bater, voa
atravessa a garganta e sai pela boca
as veiz volta e soca o estômago
pior que nocaute em final de UFC
mais doído que aquele olho roxo no Clube da Luta
as veiz morre em alto mar
dentro de um barco a deriva
e nem chega até a areia pra pelo menos
fazer jus àquela expressão
as veiz bate de novo
espanca o corpo inteiro
e marca as costas mais que açoite
as veiz um monte de coisa
e sempre é amor.
Quando me olhar 
o faça sem os dentes 
e não me arranque um pedaço da alma 
que esta ja está em pedaços 
fazendo trilha pelo chão 
pra eu não me perder 
quando chegar até você.
Eu entendo coisas que eu nunca quis saber. Nunca busquei absorver. 
Mas as vezes a vida esfrega o próprio corpo no meu como se fosse uma meretriz vampira que me suga em troca do próprio prazer. 
Eu me sinto cobaia de uma experiência pouco provável de obter sucesso. 
Todo dia é como andar numa corda bamba, onde caminho para o fim, mas vez ou outra volto ao início como se um botão de reset fosse acionado. 
Um jogo divertido de xadrez entre a vida e a morte, eu sendo a rainha, destroçada vez por uma, vez por outra. 
Dormindo e acordando no cansaço de tentar atacar as peças negras do tabuleiro, pra me esquivar das chances de abandonar o jogo antes da hora. 
Buscando no calendário da alma, o dia que eu estive lá.
agora todo dia depois da meia noite é isso 
você atravessa minha garganta 
fica la entalado, me olhando por dentro 
e se recusa a descer 
agora, todo dia depois da meia noite é um martírio 
quando a minha vista embaça cheia de água 
você nada nas minhas palpebras 
lentamente 
como quem aproveita um fim de semana na praia 
mas são só os meus olhos 
são só minhas mãos tremendo 
até o corpo inteiro 
sou só eu. 
só.
apollo dezessete 

enquanto milhares de pessoas 
adentram lojas caras 
e saem de lá com lantejoulas 
querendo roubar o brilho 
das luzes brilhantes à anos luz daqui 
enquanto a nasa vagueia pelo espaço 
em busca de vida ou um sinal qualquer 
e os adolescentes da era digital espalham 
nebulosas por todas as redes sociais 
você guarda nos olhos o segredo 
milenar das estrelas 
e a tua chegada é o próprio big bang: 
um universo novo se cria 
a cada passo teu.
eu sinto tanto a sua falta 
que chega a ser loucura 
vira e mexe a sua risada ecoa 
de repente na minha cabeça 
e eu queria te ligar pra contar do meu dia, 
mas parece que o assunto 
fugiu de nós 

agora outra pessoa deve ocupar essas minhas duas horas da tua atenção e esse não é um problema na verdade, mas te ver e enxergar o meu remédio contra insônia e pesadelos sem saber se ainda posso "usar", ver a cura dos meus pensamentos perturbados e constatar que agora és parte da causa deles. 

nessa mistura: a saudade. esse pontinho preto no meio do coração, feito mira de atirador de elite, esperando que alguém puxe o gatilho pra matar essa maldita. alem do céu que você traz no seu olá, que quando junta com o meu, agora chove. 

você se recolhe aí. eu aqui. 
e eu continuo sentindo 
tanto 
a sua falta 
que chega a ser loucura.
um grito preso na garganta 
se esgueirando pelas linhas em branco 
com preguiça de ficar e 
marcar, ali, o vazio da manhã chuvosa 
além do comodo quase sem mobília 
que guarda por trás dos desenhos na parede 
um rasgo do estrago da solidão 

o cansaço às dez e trinta da noite 
estalando no finalzinho da coluna 
enquanto a juventude se preocupa 
em esbanjar o próprio tempo nos bares lotados 
afirmando pra si mesmas a própria independência 
tão dependente ainda quanto eu sou 
do meu quarto 

a insônia dando boa noite pro sol 
às cinco da manhã 
e a vontade de ficar ali até... 
mais os vinte e poucos anos 
que sacodem a cama anunciando um 
apocalipse interno: 
o fim está próximo
a gente é uma volta e meia ao redor de nós 
e mais nós que saltam dos olhos no ônibus 
no esbarrão atravessando a praça XV no medo 
de perder a próxima barca pra Niterói 
a confusão daquela menina que veio de fora 
pra se encontrar no metrô da Sé 
e pegar o amor de surpresa parado ali 
sem saber o que lhe aguarda 

a gente é o bar depois do trabalho 
às vinte e três horas em ponto 
o happy hour na praça de sempre 
com as pessoas de sempre 
se encontrando como se fosse 
a primeira vez 

a gente é o frio na barriga no caminho 
até Jacarepaguá 
e o cafuné no sofá de noite antes de dormir 
ou a risada contida na sala de madrugada 
pra não acordar o resto da casa 
e que nunca deu certo porque faz mal 
prender a felicidade desse jeito 

a gente é a hora que acorda em casa 
com vontade de estar la do outro lado 
naquele quarto pequeno que parece lotado 
nós somos um erro astronômico 
a prova de que o big bang deu mais errado 
do que certo 
entre uma colisão e outra fomos 
a explosão astrológica mais sem sentido 
que o horóscopo do dia 
que aliás hoje dizia pra eu não usar fantasia 
e procurar não esbarrar com você 
por ai
quando eu me canso de mim, 
é a deixa do tempo pra eu ir embora 
virar com o vento a favor do meu plano de voo 
e nascer de novo em outro lugar 
dentro do meu próprio corpo 

quando eu canso de ti 
é a deixa do meu tempo pra você ir embora 
virar com o vento contra o meu plano de voo 
e morrer em todo lugar 
dentro do meu próprio corpo 

ou do teu.
meus olhos vermelhos de insônia são o par perfeito dançando marejados conforme a música durante essa sessão inabalável de notas quentes, como o sol que faz la fora agora. e o embolo na garganta precede a urgência que bate e me derreto na frente do espelho ou na rua, as oito ou nove da noite. como você. eu sei. 
é como sentir que o amor é solido e gentil como o dono daquela padoca em santa cecília. 
e então eu eu fico. faço um show particular meio anos 70 em pleno metrô lotado até a estação da cinelândia, só pra te acompanhar até lapa. 
eu fico e até seria sua amiga, mas a beleza de nós dois e a tua (física também, mas não só) nesse momento mínimo e nos outros em que me enxerga mesmo descabelada, súbita, não deixam meu egoísmo querer menos que o teu carinho, mesmo que ele venha num tapa, além da tua quinquilharia invadindo o meu espaço. eu gosto. dos clipes, grampos, espalhados junto com os teus pedaços. 
o que quero dizer, é que há química. e não há matéria que me impeça de explodir e der…
na noite passada, num bar amassado no meio da rua eu esbarrei nos meus olhos a cerveja quente no copo borbulhava o esforço homérico em por os pés na rua sem quebrar as pernas numa tentativa frustrada de não pertencer a essa peça mal dirigida que me leva a atuar como um moribundo mendigando um pouco disto e daquilo que eu não sei o que é mas de qualquer forma não sustenta a minha fome de me acorrentar às palavras porque só assim eu existo e no vazio que se encontra dentro da minha carcaça e no bar e na rua e no copo de cerveja e nesta mini prosa que não faz o menor sentido: existir é o meu ato de coragem pra hoje.
o amor 
me morde sutilmente 
como quem degusta 
qualquer porcaria 
gourmet 
e mastiga com os dentes 
mais fortes que os 
de um tigre dentes-de-sabre 
me põe la no alto 
tipo o que putim 
fez com a rússia 
me da uma esperança boba 
de mudar a humanidade 
e eu me sinto a própria 
revolução socialista 
outro dia me joga de um avião 
sem para-quedas 
bem no topo do everest 
e eu tenho que descer 
escorregando pela neve 
mistura um monte de 
assunto aleatório 
no centro do meu estômago 
e eu sempre caio 
durinha 
depois de uma convulsão 
que só aconteceu 
Caio

nesses teus encantos
mas não me levanto
afim de que me estenda as mãos
e os braços que ontem a noite
eu sonhei envolver-me
e de tão longos rodeiam minha vida
e tonteiam meus pensamentos
porque foges de mim como
o diabo da cruz
e que cruz é o martírio de querer-te
sair do proprio corpo
poderia ser talvez o alívio
a suspiro de descanso
como o de um bebê quando
recebe um afago e dorme
ali

eu me atiraria agora
sem hesitar, sem pensar, sem abrir os olhos
eu me jogaria
que nenhuma altura parece alta
o suficiente pra dar medo
eu mergulharia agora
no ar
por que me parece mais leve
que a água do mar

sair do próprio corpo
seria agora, com certeza
o alívio.
quando senti saudade
uma faca rasgou do peito ao ventre
a água esfriou abruptamente sob
minhas pernas
e elas queriam voltar

a trilha fácil e serena parecia
pedra escorregadia de cachoeira
que nunca se sobe

foi arriscado voltar
com o peito fervilhando mais
que o sol de meio dia
escaldando meus ombros

ai eu notei que era amor.
Se me perguntasse agora se tenho algo a dizer, eu não teria. Eu já disse todas as coisas e provavelmente você não ouviu. Na verdade, você não viu e a culpa não é sua. Daí não da pra ver a minha sobrancelha arcada quando você fala de si mesmo como um rei e a minha cara de incredulidade, mas no fundo gostando de tudo; nem a minha risada quando você fala consigo mesmo distraído e eu sempre -sempre- imagino a sua cara fazendo isso, porque eu rio silenciosa pra não te desconcentrar. Que por falar em silêncio, quando eu me calo não quer dizer que eu queira desligar... eu só to esperando mais das tuas histórias. Quando eu era pequena, não tinha dessas coisas de ninguém me contar historias e por vezes eu quase dormi ouvindo as tuas. Não por desinteresse, mas por me sentir tão confortável com a tua voz que até me parece fácil dormir a noite toda sem acordar dez vezes por causa dos meus pesadelos. Enfim, isso não é um skit perfeito igual aquele do Gugu, mas eu deixaria tudo pra ser uma criança…
em memória
de um grande amor
esqueça
eu contei com você na vida, como quem conta com o dinheiro da passagem pra dar um rolê, como quem conta com um cafuné de mãe pra dormir em paz, como quem conta com os carneirinhos contados pra destruir a insonia. eu acreditei em você como uma criança que acredita em papai noel, como dona Ana naquela época que acreditava no jogo de tarô que vinha na revistinha do João Bidu. eu quis você como quem quer ganhar na mega-sena da virada, como quem quer alguém tanto que chega a deixar de querer. eu cuidei de você como quem cuida de um pote de ouro (ou um pote de sorvete no meu caso), como quem cuida do avô doente pelo fim da vida, como nunca ninguém cuidou de mim nessa vida. eu enfrentei o medo de você e eu se tem uma coisa nessa vida que eu sempre tive medo, essa coisa é justamente enfrentar os meus medos. principalmente o medo do escuro. eu chorei por você como um corintiano no fim do brasileirão. senti suas dores de madrugada e só esperei o outro dia chegar e tu me contar tudo que eu ja s…
o que eu queria era pontuar a minha dor. e pra me livrar dela eu quis me livrar do medo que eu sentia olhando pra você.
o que eu posso dizer? talvez eu tenha essa leve tendência a destruir o que eu tenho de bem. é que o meu bem me destruiu tantas vezes, que me acostumei com a rotina de fim do mundo. já disse. eu tive medo. medo de corroer, de me derramar no chão que você pisa, porque todo dia do seu lado eu derreti um pouco e me apavorei quando me vi bem na palma da sua mão.
não deu tempo. por fim, eu escorreguei pelos seus dedos e fiquei lá, no chão.
no começo eu me senti livre. da dor, do medo. pensei em como deve ser libertador pra qualquer poça estar no chão. depois eu redescobri a solidão te vendo desfilar na minha frente sem me enxergar.
não vejo a hora de evaporar.