olha, eu sou o desajeito, entende? eu ando numa corda bamba em pleno
centro de uma via de mão dupla e enquanto eu atravesso no meio dos
carros, o amor passa por cima de mim e destrói o que me cabe. doeria
menos se fosse aquele caminhão da placa estranha que eu vi outro dia.
vê? eu sou o desalento. eu sou a construção desamortizada no fim da rua.
e o amor passa na porta, sem sequer cogitar a hipótese de parar pra
escutar minha história. tu vê? dos três mal amados eu sou um quarto que
nunca entrou naquela prosa porque o maldito do amor comeu eles tudo e
não sobrou espaço pra mim. porque eu sou o desequilíbrio, tu consegue
ver?
você sabotou a minha poesia minha concentração. o meu caderno de anotação ta cheio de frases não terminadas que me levam a pensar que não há frase na vida que iniciará um poema ou uma prosa sobre tuas pernas fascinada que sou por elas, mesmo que nunca as tenha visto e adoraria que me encontrassem no ar ou no meio do caminho pra eu finalmente descobrir onde começa e onde termina todo esse teu infinito no qual eu meu jogo em queda livre e caio. sem medo do que me aguarda ou me guarda.
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