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uma estação testemunhou a minha transgressão luz véspera de ano novo no meu peito e nas mãos a apreensão de quem se vê mudar de pele de dentro pra fora renascendo ali: na luz do dia da cidade cinza tão viva quanto o céu azul da planície tão luz quanto a estação que testemunhou a minha transgressão
a poesia me tomou num súbito eu entrei numa linha a caneta escorreu meu peito entre metáforas e trocadilhos mal feitos do gosto pela bagunça na falta da lírica perfeita arriscando versos sem rima porque a métrica não faz falta quando a poesia te toma e a poesia me tomou. num súbito.
gozo poemas sobe a estupidez humana e a maldade ingênua que carrega sua mente vazia ao se achar dona da verdade falo das feridas compostas por mãos sujas e honro minha própria bondade em nome da sanidade escassa que ainda reside neste corpo calo a boca das angústias deste estômago febril e consumo mais um catástrofe sumo por aqui e chego a lugar nenhum mas volto de mim um pouco maior que da última vez que me perdi encontro o paraíso nas linhas deste caderno e depois que o peito se alivia de tanta agonia o amor retorna ao lar porque já fui espera ao desabar e sobrevivência ao reparar de ouvidos atentos que escutar carrega mais sabedoria do que falar e aprendi que aprender é parte de ser e ensinar é rotina de se entregar
calo vazios calo a inconstância que se aloca em alguma parte perdida dentro da minha cabeça calo verdades que não quero escutar de mim portanto o papel não as vê também calo a letra que inicia esse poema e guardo em mim até que não haja jeito de prender meu peito é a própria faixa de Gaza e tudo que se cala explode por todos os cantos em conflito na minha pele
I - Desistência Elena Eu tô no fim de tudo La onde cê foi dançando sozinha no quarto E recitando João Cabral de Melo Neto Eu to indo também É que eu não tenho banheira nem sedativo Mas eu chego lá Eu arrombo a porta se for preciso É que ficar dói demais, Elena E também desde aquele dia Que cê virou agua Eu tô afim de te conhecer Eu vou pra aí te ver, Elena II - Se eu continuo, é pelos olhos do meu amor. Elena eu voltei do fim de tudo voltei porque ela tem uns olhos que ficam aqui bem no meio de tudo e você sabe o que é tudo não sabe, Elena? pois bem ela tá exatamente bem no meio e me atrai mais que a ideia de uma revolução camponesa e eu só penso que os fuzis desse povo todo do campo não mataria mais do que aqueles dois universos castanho meio-a-meio
Hoje, sem querer, eu vi alguém escrever no corpo uma homenagem à tua juba e o cigarro caindo da boca. Eu não sei, deu um nó na garganta. Acho que eu ainda espero você me ligar pra a gente dar um rolê de bicicleta pelo Rio, sabe? Pra eu te socorrer caso cê solte as mãos e entre na frente de um carro ou pra a gente sentar na estátua da praça XV com os capacetes na mão e esperar anoitecer pra dar uma olhada na juventude pós moderna curtindo um som ali no Teles. Ou eu espero ainda que a gente volte lá naquele show da Tulipa que a gente não conseguiu entrar, mas valeu a noite rodar de bar em bar declamando poesias que cê nunca tinha me mostrado antes e a manhã seguinte que eu saí corre do da tua casa, atrasada que eu tava. A gargalhada do Marcus ecoou a sala toda rindo da minha falta de jeito, cê lembra? Que droga, sabe? Pense aí em alguém imortal. Pois é. Sabe quando cê vai, fica no seu cantinho, mas sabe que a pessoa ainda tá lá e tem a vaga impressão de que ela sempre vai e...
"O tempo é uma uma coisa relativa. Se hoje fosse ontem, amanhã seria hoje. E como diria o síndico: vai saber o que o gorila pensa." Na primeira hora eu penso que nem devia ter acordado, mas eu penso no que viver me trará de bom naquele dia. E traz. Numa hora eu tenho os chamegos do meu amor, que não bastando é a conversa, o dia que se faz naquele minuto e define todo o rumo do resto. Depois eu tenho a hora em que eu sigo sendo o que eu quero dentro do que eu deveria e do que eu posso ser. E eu sempre escolho o que eu posso ser. As horas, elas definem o que eu sou em um dia, mas eu sei que sou muito mais. Eu sou o cigarro a varejo no bar depois de encontrar a galera mesmo quando eu estava a caminho de casa. Eu sou a ansiedade de manhã esperando ela acordar, porque é fato que a saudade aperta e mesmo quando ela tá dormindo eu penso que estar junto seria a melhor de todas as hipóteses que a minha mente constrói em um minuto. Eu sou aqui. Eu sou agora. Tudo é ansei...